O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), procurou lideranças de partidos do centrão, seu grupo político, e de esquerda para garantir a permanência no cargo a partir de fevereiro de 2027. Trata-se de uma reação ao PL, que terá a maior bancada de deputados e busca eleger um nome alinhado ao bolsonarismo para comandar a Casa.
O PDT declarou apoio à candidatura nesta quarta (14), após ele encontrar o presidente do partido, Carlos Lupi. “Ele é um presidente que mantém um bom diálogo com os parlamentares, tem respeitabilidade na Câmara dos Deputados e cumpre os compromissos legislativos assumidos. Por isso decidimos apoiar a reeleição do Hugo”, disse à Folha o líder da bancada pedetista na Câmara, André Figueiredo (CE).
A declaração de apoio do PDT deve se seguir a adesão de outros partidos de esquerda, enquanto o centrão prepara um relançamento do bloco parlamentar que une Republicanos, União Brasil, PP, PSD, MDB e outras siglas menores nesta quarta (14) para mostrar unidade em torno de Motta. O bloco funciona para atuação no Legislativo desde a eleição dele para comandar a Casa.
Motta aproveitou a retomada dos trabalhos da Câmara nesta semana, com a presença de líderes em Brasília, e intensificou as articulações em busca de apoio. Ele recebeu formalmente a adesão do PSD nesta terça-feira (13). O líder da sigla, Antônio Brito (BA), era visto como possível rival do atual presidente. O gesto deve destravar o apoio das demais siglas do grupo.
O atual presidente convocou lideranças na noite desta terça e recebeu outros representantes de partidos na manhã desta quarta (14). Seis deles relataram à reportagem que conversaram ou conversariam com Motta sobre o futuro da presidência da Câmara. Aliados afirmam que a Residência Oficial do presidente virou uma espécie de QG de campanha antecipada.
Os novos deputados e senadores eleitos tomarão posse somente em fevereiro de 2027, quando elegerão os presidentes do Legislativo. Tanto Motta quanto o atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), podem tentar a reeleição. Como mostrou a Folha de S.Paulo, o favoritismo de Flávio Bolsonaro (PL) na corrida presidencial ameaça o atual comando de ambas as Casas.
Segundo interlocutores que acompanham as conversas, Motta obteve sinalizações de alas do PP e do União Brasil. Os partidos, que estão federados, são vistos como mais suscetíveis ao assédio do PL. O partido de Flávio obteve 121 das 513 cadeiras da Casa, tem forte resistência ao atual chefe da Câmara e defende uma troca no comando.
Uma ala da federação União Brasil-PP entende que a reeleição de Motta seria importante para contrapor a força de um eventual governo Flávio Bolsonaro. O grupo avalia que, se eleito, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro precisa enfrentar algum tipo de resistência na Câmara, principalmente diante da perspectiva de o PL eleger o presidente do Senado.
Um entrave é o desejo do União Brasil de reeleger Alcolumbre na presidência do Senado. Por isso, o partido tem feito movimentos duplos, sinalizando apoio a Motta, mas também tentando construir com o PL um acordo para manter o atual presidente do Senado a bancada do PL somará 28 dos 81 senadores na próxima legislatura, dificultando essa negociação.
Parlamentares da federação citam o deputado reeleito Doutor Luizinho (PP-RJ) como cotado, mas apontam que ele não tem se movimentado para angariar apoios contra Motta. A inércia facilitou o contato do atual presidente da Câmara com os parlamentares dos partidos, sob discurso de união do centro. O presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), é um dos padrinhos políticos de Motta.
Após receber o apoio do PSD, Motta afirmou que o centro precisa entender como sobreviver na “selva política” após onda de direita. O crescimento do bolsonarismo na Câmara se deu, majoritariamente, sobre partidos que formam o centrão.
Ainda extraoficialmente, Motta também conta com apoio do MDB, liderado por Isnaldo Bulhões (AL). O atual chefe da Casa tem uma relação próxima com o emedebista, que vai liderar uma bancada de 36 deputados a partir de 2027.
O PT também sinalizou apoio à reeleição do parlamentar. Deputados do partido indicaram adesão em reunião da bancada nesta terça, mas o tema ainda será discutido novamente antes de ser oficializado. O apoio deve ser seguido pelos demais partidos da federação governista, o PCdoB e o PV.
Juntas, as siglas que formam o núcleo duro da base contam com 88 deputados. É de interesse do Planalto, segundo congressistas da base, garantir que o próximo presidente da Câmara não seja eleito na esteira do bolsonarismo, para assegurar resistência a um eventual governo Flávio Bolsonaro ou governabilidade para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), se reeleito.
Interlocutores indicam que Motta conseguiu contornar divergências no próprio Republicanos, que tem uma ala bolsonarista, incomodada com a proximidade do presidente da Câmara com o presidente Lula. O PL chegou a sinalizar apoio ao presidente nacional do partido, o deputado reeleito Marcos Pereira (SP), mas o gesto não foi bem recebido na sigla e acabou gerando unidade em torno do paraibano.
Dessa forma, Motta deve contar com o apoio do Republicanos, MDB, PSD e, possivelmente, da federação União Brasil-PP. Além disso, o presidente da Casa caminha para assegurar o apoio da base do governo, composta pelo PT, PCdoB, PV e PSB. Segundo aliados, ele ainda mantém conversas com o Solidariedade, Podemos e PSDB.
Motta foi eleito com o apoio do PL, mas enfrentou sucessivos desgastes com a sigla. O principal foi não pautar a anistia aos envolvidos com o 8 de Janeiro, o que poderia dar liberdade ao ex-presidente Bolsonaro. Os deputados votaram um projeto paralelo, com redução de penas, suspenso por decisão de Moraes.
Além disso, Motta atendeu ao governo em diversas pautas, como o fim da escala 6×1, aprovada na Câmara em maio. A gota d’água para os bolsonaristas foi a campanha eleitoral. Ele apoiou efusivamente Lula na Paraíba, estado tradicionalmente petista. Até mesmo lideranças de centro viram o uso de um boné com o nome do petista como inadequado, pelo posto de presidente da Câmara.