Dark horse é uma expressão em inglês que significa “azarão”, referindo-se ao cavalo que ganha o páreo sem ser o favorito. Numa tradução literal seria algo como “cavalo obscuro”, ou “cavalo sombrio”. Este foi o nome escolhido para a cinebiografia de Jair Bolsonaro, feita por uma produtora que estreia neste mercado, com um ator controverso, decadente e simpático a ideais e teorias conspiratórias da extrema direita. O filme está (ou não, saberemos em breve) no centro da polêmica envolvendo o senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, preso suspeito pela maior fraude financeira da história do Brasil.
Após revelações feitas pelo The Intercept Brasil de áudios e mensagens trocadas entre Vorcaro e Flávio, p pré-candidato à presidência foi obrigado a admitir a relação com o banqueiro, mesmo tendo negado categoricamente horas antes. Por fim, quarta (20), o filho “Zero Um” de Jair Bolsonaro admitiu, depois de uma reunião com a cúpula do PL, em Brasília, ter visitado o banqueiro após sua transferência para a prisão domiciliar. Sob circunstâncias normais a candidatura de Flávio já teria implodido, mas nada no Bolsonarismo acontece em circunstâncias normais.
Nos últimos dias assistimos ao espetáculo bizarro envolvendo a polêmica do detergente Ypê. A ANVISA, junto à vigilância sanitária do estado de São Paulo – governado por Tarcísio – constataram falhas graves no controle de qualidade da empresa e atestaram a presença de uma bactéria letal e super-resistente em alguns produtos. Determinou o recolhimento e orientou as pessoas a suspenderem o uso de imediato. Líderes bolsonaristas entraram em defesa da empresa e isso levou correligionários a protagonizarem vídeos usando detergentes Ypê no próprio corpo, na comida e até a simular beber os produtos. Isso é qualquer coisa, menos normal.
Casos como este mostram o controle total do bolsonarismo sobre sua base, uma espécie de lavagem cerebral, que leva pessoas a defenderem o indefensável com satisfação e orgulho, não importa o quão ridículo isso pareça. Nos faz lembrar dos momentos mais icônicos dos longos dias entre 30 de outubro de 2022 e 08 de janeiro de 2023, quando vimos Bolsonaristas fechando estradas (inclusive em Santa Cruz), acampando em frente a quartéis do Exército, rezando em volta de um pneu, se pendurando em caminhão, pedindo ajuda extraterrestre, comemorando a prisão de Alexandre de Moraes e sempre aguardando mais 72 horas, enquanto Jair Bolsonaro deixava o país rumo à Flórida e Eduardo Bolsonaro curtia a Copa do Mundo no Catar. Confrontado, disse ter levado um importante pen-drive para um importante Sheik e que isso teria consequências, que nunca vieram. Talvez em mais 72 horas. Por fim, veio o 08 de janeiro e até hoje centenas de pessoas estão presas, algumas vão passar um bom tempo atrás das grades. Jair Bolsonaro? Também está preso. Sua valentia e sua tese de perseguição política por parte do STF caíram quando, diante de Alexandre de Moraes, falou fino, tentou ficar amigo do ministro e chamou seus próprios apoiadores de malucos.
A ingrata missão dos militantes neste momento é aceitar e propagar as desculpas esfarrapadas de Flávio Bolsonaro. O herdeiro do Bolsonarismo nega e desnega, confirma e desconfirma teorias e justificativas ao sabor dos acontecimentos. A paciência do partido está acabando, a do centrão também. A rejeição de Lula não parece suficiente para manter a competitividade de alguém tão enrolado, mas os bolsonaristas, sobretudo nas redes sociais, seguem fiéis e comprometidos com o projeto do senador. Nas postagens sobre as aventuras de Flávio e Vorcaro, tudo se justifica pelo sonho do filho em homenagear o pai com uma superprodução de Hollywood. A resposta padrão do bolsonarismo no momento em comentários de publicações em todas as redes é a CPI. “Por que o PT não assina a CPI do Master?” – é a pergunta mais encontrada em qualquer postagem sobre o tema. Parece um comando sendo seguido. E é.
O Bolsonarismo envolveu seus adeptos e militantes, que passam horas e horas em grupos no Whatsapp, Telegram, canais no Youtube, páginas no Instagram e TikTok, no Twitter. Uma super rede de desinformação, fake news e comandos para ações em massa. As explicações não precisam fazer sentido, basta serem uma defesa do bolsonarismo e um ataque ao inimigo comum, a esquerda. São milhões de militantes prontos para debater na internet ou sair na porrada no meio da rua, se for o caso. Assim, o bolsonarismo garante sua barganha máxima, seu público fiel. Impossível ganhar eleições com votos de direita sem o bolsonarismo. Flávio seguirá candidato a menos que ele próprio não suporte a pressão. Porém, mesmo que o Zero Um venha a sucumbir, caberá à família decidir o rumo da direita. Para convencer o eleitorado, basta dar o comando no grupo e este será replicado.
Quer ver isso na prática? Leia os comentários desta e outras publicações, de pessoas que sequer leram o texto e depois veja essas mesmas pessoas com os mesmos argumentos em comentários de postagens de notícias ou de lives em programas de rádio no facebook, bem como no Youtube. A máquina bolsonarista segue trabalhando para garantir a força eleitoral, não importa quantos Vorcaros apareçam. Do outro lado do balcão, assistimos atentos à repercussão da mala de dinheiro do Sóstenes, da mesada do Ciro Nogueira, dos passeios de Nikolas Ferreira no jatinho, do Hugo Mota no jatinho do dono do Tigrinho e do famigerado filme. No fim das contas, a profecia dos Bolsonaro vai se cumprindo: o filme vai mesmo tocar o coração das pessoas e decidir a eleição.
Por Paulinho Coelho

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